Beijos em Nova Iorque

Catherine Rider Londrinos, Elliott e Noble são coautores da série “Beijos em…”, no qual escrevem sobre romances com vários países como cenário. James trabalha como editor em Londres e publica seus livros sob vários pseudônimos. Stephanie também é editora e escritora. Se mudou para Nova Iorque e trabalhou ali por 20 anos. Atualmente, mora no Maine com sua família. No total, os co-autores publicaram seis livros juntos sob o pseudônimo Catherine Rider. Resumo No aeroporto, Charlotte e Anthony se encontram em situações deprimentes de pós-término. Charlotte, presa em Nova Iorque por um cancelamento de voo, propõe ao novo conhecido que passem a véspera de Natal juntos e sigam um livro que ela comprou intitulado “Supere seu ex em 10 passos fáceis”. Assim, eles se aventuram em eventos aleatórios que somente essa cidade e essa época poderiam propiciar. A proposta é legal, mas as interações às vezes parecem forçadas e roteirizadas, o que não é o ideal em uma história que se utiliza de imprevistos e aleatoriedade como base do enredo. Nesse caso, senti que faltou algumas gotas de realidade e uma boa construção e linearidade das personalidades protagonistas. Para mim, esse é o tipo de história que deve ser crível, o que admito não ser tarefa fácil de conciliar com o que o gênero exige. Porém, no final, é isso que diferencia uma narrativa de tantas outras.
Memórias de um sargento de milícias

Memórias de um sargento de milícias (1852-1853) Manuel Antônio de Almeida A obra narra a história de Leonardo, um menino travesso que se torna mais tarde um homem malandro e vadio. Acompanhamos desde a primeira interação de seus pais até sua vida adulta, escapando das mais diversas situações complicadas que ele mesmo se coloca. Ambientado no Rio de Janeiro do começo do século XIX, temos nesta história vários relatos e descrições dessa época. Esta história não é, nem de longe, a melhor que li ou vou ler na minha vida. E isso é impressionante. Ela foi escrita de forma questionável — algumas partes ditadas na hora de ser impresso o jornal — e sua narrativa é irregular até o final. Para um rapaz de 20 anos que tinha de trabalhar para sustentar sua família e que decidiu escrever no jornal em que trabalhava, Manuel não tinha nenhuma grande aposta de que sua escrita iria mudar a literatura brasileira. Talvez tenha sido por isso que se sentiu tão à vontade para escrever o que queria: o Brasil de seu tempo. Apesar de todas as críticas que podem ser feitas à história, ela é cativante, bem-humorada e apresenta personagens urbanos, que viviam seus grandes momentos no cotidiano, nos quais reconhecemos muitos dos que passam em nossas próprias vidas. Diferente de tudo o que era publicado na época, Manuel escreveu sobre parideiras, barbeiros, ciganos, benzedores, violeiros e outros que não tinham espaço na literatura romântica tão em alta. Leonardo, o “primeiro malandro”, pode não ser tão carismático quanto outros que virão, mas estreia a categoria. Esta obra, portanto, possui um valor muito grande para nossa nação e para o ofício do escritor. Ela influenciou gerações de escritores, servindo de inspiração e referência para criações cada vez mais primorosas. Manuel Antônio de Almeida, mesmo não tendo reconhecimento em sua breve vida, se interessava por aquilo que não parecia interessante, e foi isso que o eternizou. Manuel Antônio de Almeida (1831-1861) Nascido no Rio de Janeiro, Manuel Antônio ficou órfão de pai aos 10 anos e de mãe, aos 20. No mesmo ano em que perdeu sua mãe, começou a trabalhar de redator no jornal Correio Mercantil; neste, sem indicar sua autoria, Manuel publicou os folhetins que constituiriam Memórias de um Sargento de Milícias, seu primeiro e único romance. Em 1854, o autor custeou a publicação da obra completa e assinou como Um Brasileiro. Apesar do valor de venda baixo e das ofertas no jornal, o romance não teve grande venda e muitas cópias foram “devoradas pelos ratos”, segundo Ruy Castro. Em 1858, foi nomeado Administrador da Tipografia Nacional, atual Imprensa Nacional. Ali possuía um ajudante de tipografia, Joaquim Maria Machado de Assis, do qual se afeiçoou e ajudou a permanecer no emprego. Em 1861, Manuel foi nomeado 2º Oficial da Secretaria da Fazenda e, ainda sustentando a si e suas irmãs, se candidatou à Assembleia Provincial do Rio de Janeiro. Em 1861, aos 30 anos, em seu primeiro ato de campanha, viajou para o norte do estado no barco a vapor Hermes com cerca de 90 pessoas a bordo. O fundo do casco foi danificado numa parte do trajeto e o navio começou a naufragar. Após o resgate, 37 pessoas haviam morrido. Entre elas estava Manuel Antônio de Almeida. Um ano após sua morte, Quintino Bocaiuva e Machado de Assis editaram e publicaram uma nova versão de Memórias de Um Sargento de Milícias, indicando pela primeira vez o nome de seu autor. Esses e outros amigos de Manuel ajudaram a manter vivo seu nome, citando o autor em várias ocasiões.
Amleth

Saxo Grammaticus (c. 1150 – c. 1200) Historiador e teólogo, Saxo foi incentivado a registrar a história dos dinamarqueses pelo arcebispo Absalão de Lund, do qual era secretário. Apesar de mesclar registros históricos, poemas, lendas e mitos, o que deixa sua obra menos fidedigna, Grammaticus é o primeiro historiador do período e a fonte mais antiga sobre seu tempo e o passado dos dinamarqueses. Sua obra mais famosa é a Gesta Danorum (Feito dos Dinamarqueses), um compêndio de 16 livros que vai desde o rei mítico Dan I até o rei histórico Canuto VI. Resumo Traduzido por Artur Avelar e publicado pelo selo Barbudânia, o livro Amleth corresponde aos livros III e IV do Gesta Danorum. O jovem Amleth se vê em grande risco quando seu pai, Ørvendil, é morto pelo irmão, Fengi, por este ter inveja de suas conquistas. Fengi então se apossa das terras e da esposa de Ørvendil. Amleth, para não ser visto como uma ameaça, finge-se de louco por anos enquanto trama sua vingança. O relato sobre Amleth é empolgante e mostra sua astúcia e sacrifício a fim de concluir seu objetivo. Além disso, apesar de ser um registro histórico, Saxo conduz a história de Amleth de forma literária. Em sua narração, adiciona reflexões e conselhos retirados de diversas situações. Em alguns momentos, expressa críticas e é até mesmo cômico, dependendo da interpretação. Mesmo sendo uma história empolgante, o maior interesse nessa obra está em ela ser a fonte da peça Hamlet, de William Shakespeare, escrita por volta de 1600. Porém, antes da versão que a deixou famosa, a história de Amleth foi traduzida ou adaptada por outros autores: Histórias Trágicas, de François de Belleforest, em 1572; A História de Hamblet, em 1608; e a versão perdida para teatro Ur-Hamlet, escrita em 1589, apenas mencionada em algumas fontes. Citações “Em tempos de problemas, a discussão amigável não remove os perigos, mas diminui a preocupação.” (pág. 15) “Nós os chamamos de ‘deuses’ mais por suposição do que verdade, e damos a eles o título de ‘divindades’ pelo costume popular, não por sua natureza.” (Pág. 16) “[…] uma batalha era mais adequada e benéfica quando uma desculpa apropriada para a vingança tornava a guerra um dever.” (pág. 29) “Se os tolos às vezes são favorecidos e os caluniadores honrados, as pessoas certamente acreditarão nas mentiras dos príncipes.” (pág. 39) Curiosidade Saxo viveu em um tempo de valorização da língua latina devido à grande influência católica na época. O autor também escreveu em latim, pois, além de católico e servo da Igreja, acreditava que isso iria garantir a sobrevivência dos textos históricos. Segundo ele, “Se o destino tivesse concedido a língua latina a este nosso país nos primeiros dias, estaríamos folheando incontáveis façanhas dinamarquesas”. Fontes de pesquisa AVELAR, Arthur. Amleth. Barbudânia, 2022. FISHER, Peter. OUPBlog. Disponível em: https://blog.oup.com/2014/09/who-was-saxo-grammaticus/. KILLINGS, Douglas B. The Danish History, Books I-IX. Disponível em: https://www.gutenberg.org/files/1150/1150-h/1150-h.htm. Ilustração de Louis Moe, 1898. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sax%C3%A3o_Gram%C3%A1tico#/media/Ficheiro:Saxo_Grammaticus.jpg.
Guerra Adorável Guerra

Julie Berry Bacharel em Comunicação e mestra em Escrita Criativa, escreve romances e livros infantis. Em 2009, publicou seu primeiro livro, The Amaranth Enchantment. A nova-iorquina é proprietária de uma livraria local na cidade Medina, de onde sua família tem origem. Se declara ativista de causas feministas, raciais e de gênero. Resumo Uma ficção histórica na qual a deusa Afrodite é presa por Hefesto numa rede junto de Ares, seu amante, e ali conta duas de suas histórias de romance favoritas. Esse pano de fundo mitológico é tenebroso e doloroso de ler, me fazendo de início questionar a curadoria da editora que publicou o livro. Com esse sentimento, grande foi a minha surpresa e confusão ao constatar que as duas histórias contadas pela deusa são bem escritas, envolventes e emocionantes! O toque especial da autora é sua fidelidade ao cenário histórico, demonstrando a todo momento que um profundo estudo e pesquisa foram realizados para a criação da obra. Além disso, há textos anexos que apresentam mais informações sobre a Primeira Guerra Mundial e seus impactos na sociedade. Apesar de ter vários questionamentos sobre as escolhas editoriais desse livro, Berry é, por evidência, uma autora comprometida com suas histórias e notável na escrita de romances. Curiosidade Este livro foi retirado das bibliotecas do Distrito Escolar do Condado de Escambia, na Flórida, por ter “conteúdo sexual explícito” (Darkside, 2025). Acusação que, após a leitura da obra, vê-se que não se sustenta. Fontes de pesquisa BERRY, Julie. Guerra, Adorável Guerra. Darkside, 2024. DARKBLOG. 2025. Disponível em: https://darkside.blog.br/as-varias-facetas-de-julie-berry/. JULIE BERRY BOOKS. Disponível em: https://julieberrybooks.com/. RINKA, Chloe Fox. The daily orange. Disponível em: https://dailyorange.com/2024/11/defending-banned-books-guest-authors-talk-censorship-politics/. STEELE, Sarah. Mormon Artist, 2014. Disponível em: https://mormonartist.net/interviews/julie-berry/. Foto: https://mormonartist.net/interviews/julie-berry/.
O cardeninho de desafios de Dash & Lily

O caderninho de desafios de Dash & Lily (2010), de David Levithan e Rachel Cohn Na livraria Strand, Dash encontra um pequeno caderno de capa vermelha deixado por uma garota procurando sua cara-metade. Para conhecer a garota, ele deve desvendar as pistas literárias e resolver as tarefas propostas. Através do caderninho, Dash e Lily se comunicam e constroem uma nada típica relação. Por mais que seja difícil encontrar um romance adolescente com alguma inovação e que ainda assim entregue o esperado “final feliz”, acredito que David e Rachel conseguiram escrever uma história com autenticidade. Dash e Lily são adolescentes com personalidades fortes e atitudes questionáveis muitas vezes, mas que buscam ter alguém para amar. Apesar de todos os conflitos internos e externos, a narrativa possui muitos momentos engraçados. Ao escreverem a história alternando a autoria dos capítulos, e sem se falar durante o processo, David e Rachel criaram momentos que acrescentam na experiência de leitura com quebra de expectativa e sensação de imprevisibilidade. Citações“Se Lily queria acreditar que havia alguém lá fora só para ela, eu queria acreditar que poderia ser alguém aqui dentro só para mim.” (pág. 93)“Queria que a primeira coisa que ele visse quando abrisse os olhos fosse o rosto simpático de alguém que gostava muito dele.” (pág. 261)CuriosidadeA livraria Strand existe mesmo e é uma das maiores e mais famosas livrarias independentes de Nova Iorque; Rachel não gosta do Natal e, por isso, achou que seria divertido escrever uma protagonista que ama a época.
Senhora

Senhora, de José de Alencar (1837) Aurélia, uma moça pobre e órfã, recebe uma grande herança de um parente distante e se torna milionária. Muitos pretendentes a cortejam com grande interesse pela sua fortuna, relevando até mesmo a personalidade orgulhosa e os comentários debochados da mulher. Porém, Aurélia já sabe com quem irá se casar e pretende pagar o quanto for preciso para isso. Um romance de época com uma heroína inteligente e de língua afiada. O narrador é do tipo fofoqueiro e faz várias observações críticas à sociedade carioca aristocrática da época. Os diálogos são o ponto alto, com trocas profundas, sagazes e divertidas entre os personagens. Ao autor, dou todo o mérito por representar uma jovem moça com muita fidelidade ao gênero, não a limitando a um perfil raso, mas apresentando, através dos pensamentos e atitudes, as camadas de uma mulher. O desfecho não me agrada por completo, mas o compreendo e acredito que possa ser debatido a fim de conhecer as percepções que outros leitores possam ter da trama, que é de difícil análise devido ao caráter subjetivo e contextual das situações em que os personagens centrais foram alvo de sofrimento.